Entrevista exclusiva com o Catedrático português João Corte-Real!

Publicado: setembro 25, 2012 em Arquivo BFC!, Entrevistas e debates
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“Ninguém pode, com seriedade científica, dizer que sabe o que vai acontecer no futuro. Nós não sabemos o que vai acontecer.”

A equipe fakeclimate está cada dia mais cosmopolita e a novidade de hoje é uma grande entrevista feita com João Corte-Real, uma das maiores autoridades em climatologia de Portugal e da Europa e que de forma muito simpática nos recebeu em seu gabinete para nos ceder informações valiosas e um pouco de suas opinões sobre aquecimento global, IPCC, energias renováveis e a política por trás de tudo isso!

Bom, sem mais delongas, vamos a essa entrevista épica!

Entrevista exclusiva com o Catedrático português João Corte Real!

(fonte: Universidade de Évora)

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Fakeclimate: Há um embate entre modelos de clima e as observações em climatologia?

João Corte-Real: Para mim há dois aspectos, o aspecto das observações e o aspecto dos modelos. As minhas dúvidas em relação a posição oficial vem precisamente em relação as observações e não dos modelos. Porque as observações nos levam a concluir que, nos ultimos 10 a 15 anos, aquela tendência que se observou de subida na temperatura média global parou. A temperatura média global continua acima do parâmetro de referência 61-90, mas agora flutua em torno de um determinado valor e a tendência que havia antes parece ter desaparecido.

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O que na minha opinião não é consistente com o continuo aumento das concentrações de gases do “efeito estufa”, se o fator de origem antropogênica estivesse dominando não deveriamos observar isso, que é uma estagnação dessa tendência, que aliás, não é só na temperatura média global. Por exemplo, o  IGBP português (Internacional Geosphere Biosphere Programme), que é um programa internacional que existe há mais de 20 anos e que foi criado exatamente pra estudar as mudanças globais. Portugal desde uns 8 anos para cá faz parte deste comitê, o IGBP fez um encontro em 2010, e nesse encontro houve a intervenção de uma cientista espanhola da Universidade de Barcelona que afirmou que as temperaturas em Espanha estagnaram.

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Portanto, as minhas dúvidas vem de observações e não de modelos. Quanto aos modelos, todos nós sabemos e todas as pessoas que trabalham com modelos sabem, que os modelos óbviamente tem limitações. Porque as suas parametrizações são ainda deficientes em muitos campos importantes na dinâmica e na física da atmosfera, por exemplo, na física de nuvens, no papel dos aerossóis no sistema climático. Há muita coisa ainda por melhorar.

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Agora, isso não significa  que devemos deitar fora os modelos! Porque para podermos ter uma perspectiva do que será o clima no futuro isso só pode ser feito recorrendo a modelos, e isso não significa que precisam ser esses modelos, poderiam até ser outros, porém não devemos jogar os modelos fora. Eu pessoalmente gosto muito de modelos pois trabalhei na previsão numérica do tempo há muitos anos, no então serviço metereológico nacional. Porém não devemos confundir projeções de modelos com realidade, porque nós já percebemos que os modelos nos fornecem resultados que não são confirmados pelas observações.

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Temos que encarar os modelos com uma certa “distância” embora os continuemos a utilizar e a melhora-los, eu julgo que os modelos são de alguma forma uma grande conquista da ciência,  porque aquilo que já se conseguiu mostra que já conseguimos perceber muita coisa, embora há muitas coisas que ainda não percebemos completamente e não conseguimos modelar. Eu não nego que o homem possa influência negativamente o sistema da atmosfera, porém não acho que isso seja dominante frente aos fatores naturais.

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Para o modelo atual, qual a influência do sol e da variação de manchas solares?

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O sol é a principal fonte de energia para o sistema climático e por consequência as variações  da atividade solar, que estão relacionadas a quantidade de energia recebida no sistema, eu julgo que não podem ser ignoradas. Diz-se que essas variações são muito pequenas e por isso o efeito será diminuto, no entanto, eu não sei se podemos tirar essa conclusão assim apressadamente.

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Porque variações que percentualmente são pequenas mas distribuidas num período de tempo suficientemente longo pertubando continuamente o sistema não deveriam ser ignoradas. Por exemplo, este ano estamos numa intensificação da atividade solar e julga-se que essa intensificação terá pouco efeito a nível climático, exatamente porque ocorrerá num lapso de tempo relativamente pequeno ,no entanto, variações da mesma ordem de grandeza distribuidas num intervalo maior podem ter como resultado perturbações significativas no clima. Tendo em vista o mínimo de Maunder que ocorreu no século XVIII, hoje estamos num ciclo de Gleissberg e estamos numa fase de atenuação da atividade solar associada a esse ciclo e por consequência julgo que o sol é um elemento essêncial.

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Porque o sol, sendo tão importante fica coadjuvante ou nem mesmo aparece nos modelos atuais?

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É que os modelos atuais cobrem um intevalo de tempo relativamente pequeno, por consequência não é possível incluir nos modelos atuais fatores astronômicos de uma forma significativa.

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Quanto ao IPPC (Intergovernmental Panel on Climate Change), podemos confiar em seu modo de operação dentro da ONU? O que predomina a ciência ou a política?

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Repare, o IPCC é uma organização intergovernamental, como o próprio nome indica e portanto o IPCC é guiado por política. Como dizem os ingleses “politically driven” ou “guiado por política” e isso não significa que o IPCC não tenha uma componente científica. Mas as motivações são políticas e por consequência, todas essas políticas definidas pela ONU e a União Européia não irão de encontro aos interesses das mesmas. Há algum tempo estive em um evento internacional e um cientista alemão perguntava o porquê de seus estudos sobre o efeito dos aerossóis na atmosfera não terem sido incluíos no relatório mesmo a pesquisa tendo sido concluída e computada. Não sei porquê razão o IPCC não incluiu os estudos desse cientista, mas não me espatanria que fossem por razões políticas. O IPCC não é inteiramente científico, ele é movido por razões políticas e essas razões podem ou não levar a incluir resultados científicos.

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A união européia definiu como objetivo central o desenvolvimento de energias renováveis para combate as alterações climáticas, porém eu julgo que se o clima estiver mudando de fato, por uma razão ou outra, não haverá hipótese de contrariar essa alteração. As alterações dão-se. E o “lutar contra” pode ter efeitos que não podemos nem ao menos estimar, no fundo o “lutar contra as alterações climáticas” é uma bandeira. E o efeito dessa bandeira é desenvolver as energia renováveis. Porém, não estou contra o desenvolvimento de energias renováveis, porque acho que há um problema energético no mundo. Aqueles que produzem petróleo não estão no mundo ocidental, e muitas guerras e conflitos são travados por conta disto. Mas  o que sou contra é que a introdução dessas energias seja feita a custa de se meter medo as pessoas com as alterações climáticas.

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Qual a sua opinião sobre o interesse internacional na Amazônia?

“Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós.” – Al Gore (1989)

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Os grandes responsáveis pelas políticas mundiais apoiam sempre suas intervenções em grandes príncipios que parecem muito indiscutíveis e muito bonitos e que toda a gente aceita. Mas o evocar desses príncipios esconde apenas o interesse financeiro, e o lucro, e o poder desses países em controlar esses meios. Eles não podem falar assim, mas o que está por trás dessa afirmação como essa do Al Gore, é uma política de interesses econômicos e financeiros e de poder, isto é, os países continuam a crêr que podem controlar os outros. Ouvimos muitas vezes dirigentes americanos dizer que a América continuará a ser a maior potência mundial, e eu vejo que essas motivações são de fato a origem das guerras e da corrupção e de tudo isso que vemos a acontecer no mundo.

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Isto tambem se reflete no que se diz de clima, quando se fala de se desenvolver energias renováveis qual a motivação expressa? É a descarbonização do clima. E porquê a descarbonização? Porque senão haverá uma alteração climática provocada por nós e que será catastrófica. E o que está realmente por trás disso não são as alterações climáticas.

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Alterações climáticas hoje, não significa duas coisas. Alterar ou evitar uma alteração do clima, “alterações climáticas” é um conceito único equivalente a “desenvolver energias renováveis”.

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Nesse cenário, portanto, quais seriam os grandes interesses por trás do alarmismo?

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Nós vemos que as grandes intervenções são muito dependentes dos recursos que os países que sofrem a intervenção possuem. Hoje vemos o que passa na Síria, as pessoas protestam mas ninguém intervem, já na Líbia interviram rapidamente. No Haiti houve aquele sismo, aquelas pessoas vivem em condições degradantes e ninguém intervem alí em força. Porque? Porque o Haiti é um país sem interesses externos.

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Debaixo dessas grandes ideias, e dessas mensagens de solidariedade, sustentabilidade e etc, continua a se verificar de fato a procurar do poder e da riqueza. Nós vivemos em um mundo de enganos. Na minha perspectiva, quando se fala da democracia em oposição a ditadura lá estão grandes princípios de liberade e livre expressão porém nos países democráticos isso não se verifica! Enquanto que o ditador é ostensivamente opressor, não deixa falar, e se falar é preso. Nas democracias se a pessoa fala ela é liquidada indiretamente. Portanto vivemos num mundo de hipocrisias de fato.

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Quais as perspectivas das políticas ambientais em Portugal hoje?

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Em Portugal a política é o desenvolvimento de energias renováveis, embora tenha havido uma desaceleração nesse ponto devido a crise econômica. Crise essa que resulta de corrupção, não se baseia só na crise internacional. Temos muita responsabilidade interna. Portanto, aqui em Portugal continuamos a ouvir falar de sustentabilidade e isso se confunde com as energias renováveis. Até porque essa é uma política européia, temos pouca probabilidade de fazer políticas próprias que não tenham haver com o que a europa diz.

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As energias renováveis de qualquer maneira, há um aspecto importante aqui, que eu recuso embora nada possa fazer, boa parte das faturas que pagamos a EDP (Distribuidora de Energia em Portugal) é para energias renováveis, isto é, as energias renováveis têm-se desenvolvido de uma forma privilegiada. Nós estamos a paga-la! Elas não conseguem se pagar, não são ainda competitivas. Até mesmo no uso doméstico, instalar energia solar em casa é ainda muito caro e o uso das instalações é de no máximo vinte anos, ora, vinte anos é muito pouco.

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Por outro lado não há “free lunch”, isto é, não há nada perfeito. A própria utilizaçãodo petróleo e outros combustiveis fósseis tambem tem seus inconvenientes. Mas o que de fato acontece é que as energias renováveis não são ainda competitivas, e as pessoas estão sendo obrigadas a financiar essas iniciativas e consequentemente isso significa que algumas empresas estão tendo bons lucros.

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E quanto a imposição das “energias renováveis” aos países pobres da América Latina e África?

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Os países em desenvolvimento, alguns deles tem os recursos, caso do Brasil. Mas outros não tem, e a pobreza em África é constrangedora. Não venham agora dizer que esses países não podem se desenvolver como os outros! E mais, eu julgo que esses países continuam de uma forma indireta a ser colonizados. Os países subdesenvolvidos precisam das fontes tradicionais de energia.

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Se fala muito de um aumento nos eventos extremos, como furacões, tornados, tempestades e isso por conta das mudanças climáticas. Essa é uma realidade? O que foi observado até agora?

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Os modelos de clima apontam nessa direção, mas nós sabemos que os modelos de clima estão enviesados, estão forçados para aquecer. Se aqueles processos físicos que se opõe ao forçamento associado ao aumento das concentrações de gases do efeito estufa não estiverem bem representados nos modelos, claro que eles vão aquecer demais.

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E efetivamente os modelos de clima, quer os globais quer os regionais estão enviesados nesse sentido. Portanto os resultados dos modelos dão temperaturas superiores as observadas aqui na penísula Ibérica e precipitações abaixo daquilo que é observado. Há um enviesamento para mais quente e mais seco.

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Se me perguntarem assim: “Os extremos tem se verificado com mais intensidade e com maior frequência?” Eu não saberia responder essa pergunta, pois não existe uma clara tendência. Há situações que poderão levar a pensar que sim, por exemplo, no passado era muito improvável a presença de tornados em Portugal, recentemente têm sido reportada a ocorrência de tornados. Mas nós não podemos basear-nos em fatos individuais para tirar conclusões climáticas.

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Houve há uns anos atrás, em 2005, um aumento do número de furacões no atlântico e toda a gente dizia “cá estão as alterações climáticas” portanto vamos passar a ter uma média maior de furacões e muito mais intensos, e de repente os furacões parece que desapareceram!

 

João Alexandre Medina Corte-Real 

Professor Catedrático da Universidade de Évora, aposentado desde Janeiro de 2007 e investigador do Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas – ICAAM, onde criou em 2007 e foi o coordenador até Abril/2012 do Grupo “Água, Solo e Clima” (ASC_ICAAM), constituído por uma equipa interdisciplinar, que aborda temas de investigação fundamental e aplicada, relativos à Água.

Foi Professor durante 38 anos na FCUL, Lisboa, onde constituiu, em 1991, o Grupo de Meteorologia/Climatologia, do Departamento de Física e do Instituto de Ciência Aplicada e Tecnologia (ICAT), com 21 membros, nos domínios da investigação em climatologia dinâmica, e climatologia estatística, da variabilidade climática, das alterações climáticas e seus impactos, e da simulação numérica da circulação atmosférica à escala regional.

Ao longo da sua docência orientou mais uma centena de alunos (licenciatura, mestrado, doutoramento), participou em mais de 3 dezenas de Projectos (Portugueses, Europeus e Africanos) e publicou mais de 70 artigos científicos.

No presente, a sua área de investigação principal centra-se na variabilidade climática e seus impactos, na modelação de cenários regionais, na Física das nuvens e precipitação, na dinâmica da atmosfera, na hidroclimatologia e na ecohidrologia.

Foi sub-director do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, e Presidente eleito do Comité Nacional do IGBP (International Geosphere-Biosphere Programme); entre outras funções que exerceu e ainda exerce, foi membro de comités de acompanhamento da Comissão Europeia e avaliador de projectos europeus.

Se quiser saber ainda mais sobre ele, acesse sua página pessoal, aonde encontrará a lista de seus artigos publicados e mais informações sobre seus trabalhos científicos.

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Pra finalizar gostaria de parabenizar ao blog terrorismo climático, pelo seu primeiro aniversário!

Abraços tropicais!

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comentários
  1. […] Global e Ecossistemas Terrestres (GCTE) e do Programa Internacional Geosfera-Biosfera (IGBP). (Ver Prof. Corte Real). Bert Bolin escreveu em Science, setembro 14, 1999, comentando o estudo de DeLucia et al., […]

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