Royal Society, Clube de Roma e WWF: conciliábulo com a múmia de Malthus

Publicado: agosto 31, 2012 em Arquivo BFC!
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16 de maio de 2012 (www.msia.org.br) – Três seletas entidades do Establishment anglo-americano, a Real Sociedade britânica, o Clube de Roma e o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), responsáveis pela elaboração e disseminação da estrutura de crenças do ambientalismo político, divulgaram simultaneamente manifestos de cunho malthusiano destinados a influenciar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. A iniciativa coordenada é parte de uma ofensiva pensada para destacar o componente da alegada vulnerabilidade ambiental, em meio à crise sistêmica global, para cuja superação será imprescindível a neutralização das estruturas hegemônicas do Establishment oligárquico, entre as quais o pessimismo cultural e as restrições econômicas impostas pelo ambientalismo nas políticas públicas têm lugar de destaque.

Uma vez que tais entidades baseiam os seus axiomas nos velhos sofismas que celebrizaram o reverendo Thomas Malthus, não se poderia exigir de nenhuma delas uma originalidade em suas propostas, quase idênticas. Como se sabe, Malthus foi um dos economistas da Companhia das Índias Orientais britânica, a primeira multinacional do mundo, e, em tal condição, ajustava as suas falaciosas conjecturas sobre a população e seus meios de subsistência (que plagiou do economista italiano Giammaria Ortes) aos interesses coloniais dos seus patrões. Além de participar dos círculos da realeza britânica, foi também admitido na Real Sociedade. Talvez, mais que as suas desacreditadas teses populacionais, o seu caráter misantrópico tenha sido melhor explicitado pela virulenta oposição que moveu contra as técnicas de vacinação contra a varíola, desenvolvidas pelo médico Edward Jenner, por considerá-las contrárias aos controles naturais do tamanho das populações humanas, exercidos pelas doenças epidêmicas.

Ainda assim, chega a ser quase delirante que o controle populacional, essência do malthusianismo, juntamente com um “decrescimento” mundial, com a redução do consumo e um aumento dos custos nas economias produtivas, estejam sendo promovidos como sendo a única forma de se evitar um colapso ambiental no planeta. Isto, em meio a um perigoso processo de desindustrialização em várias economias importantes, continentes inteiros, como a África, exigindo investimentos maciços em infraestrutura moderna, desemprego em alta, derrocadas financeiras e países como a Rússia e o Japão sofrendo os efeitos do encolhimento – e envelhecimento – de suas populações.

Por isso, não deixa de ser irônico que o estudo da Real Sociedade, People and the Planet (As pessoas e o planeta), lançado em abril, exiba na capa a célebre montagem de fotos de satélites da NASA que ilustra o mundo à noite, demonstrando a coincidência entre as áreas mais iluminadas e os níveis de desenvolvimento das nações do planeta. Para qualquer pessoa sensata, tal imagem sugere a necessidade de um vigoroso esforço para assegurar a eletrificação daquelas regiões mais atrasadas, o que somente é possível com fontes energéticas eficientes e economicamente viáveis. Ao contrário, o texto insiste nas fábulas da “economia de baixo carbono”. A expressão é um eufemismo para a insana agenda de “descarbonização” das fontes energéticas, sem que existam substitutos tecnológica e economicamente viáveis, em grande escala, para os combustíveis fósseis – petróleo, gás natural e carvão mineral -, responsáveis por mais de 80% da energia primária e dois terços da eletricidade gerada no planeta. Se tal agenda for implementada, como sugerem os seus proponentes, não é preciso muita imaginação para se antecipar as consequências – um virtual “congelamento” do desenvolvimento mundial, nos níveis atuais.

O estudo da vetusta sociedade britânica apresenta nove recomendações básicas, que mal ocultam o seu caráter malthusiano, como a sugestão de que os países desenvolvidos e as principais economias emergentes estabilizem e reduzam os seus níveis materiais de consumo, “desassociando, sistematicamente, a atividade econômica dos impactos ambientais”. Além da malícia de equiparar as economias industrializadas e as emergentes, a proposta explicita e reitera a antiga intenção desse aparato hegemônico, de condicionar os níveis de desenvolvimento socioeconômico a supostas limitações ambientais, definidas por critérios que pouco têm a ver com a ciência – como é cada vez mais perceptível, por exemplo, na politização das questões climáticas.

Outra recomendação é o aumento do financiamento internacional para os programas de saúde reprodutiva, outro eufemismo, desta feita, para justificar a legalização do aborto e o planejamento familiar “voluntário”. Em uma explícita manifestação do estreito parentesco entre o malthusianismo e o ambientalismo, o documento estabelece que o tamanho da população e os cuidados com o meio ambiente não são “assuntos separados”, sugerindo que tal fato exige uma mudança nos parâmetros culturais, nas ciências naturais e sociais, para que as pesquisas científicas se baseiem na interação entre “consumo, mudanças demográficas e impactos ambientais”. Palavras aparentemente isentas, mas que remetem às diretrizes ideológicas impostas ao mundo pelos interesses representados na Royal Society e suas congêneres.

O Clube de Roma revisita os “limites do crescimento”

Em 8 de maio, cumprindo a sua parte na nova ofensiva malthusiana, o Clube de Roma lançou, com grande pompa, em Rotterdam, o seu mais recente manifesto catastrofista, uma espécie de atualização requentada do célebre relatório Limites do crescimento, que, em 1972, foi um dos marcos da deflagração da onda pessimista do ambientalismo, em âmbito mundial. Para simbolizar a “reciclagem”, o autor do novo estudo, intitulado “2052: uma previsão global para os próximos 40 anos”, é o físico norueguês Jörgen Randers, um dos autores do relatório de 1972. Randers, professor de Estratégias Climáticas da Universidade de Oslo, é assessor do governo e de entidades privadas norueguesas para estratégias referentes às mudanças climáticas e tem estreitos vínculos com o WWF, do qual já foi dirigente de suas seções internacional e nacional. A ONG ambientalista número um do planeta participou, institucionalmente, da elaboração do novo manifesto.

O tom alarmista do relatório foi dado por seu autor, na entrevista coletiva de lançamento do documento: “Nós já vivemos de uma maneira que não pode ser mantida por gerações, sem grandes mudanças. A Humanidade já ultrapassou os recursos da Terra e, em alguns casos, veremos colapsos locais antes de 2052 – estamos emitindo duas vezes mais gases de efeito estufa, a cada ano, do que pode ser absorvido pelas florestas e oceanos do mundo.”

Segundo ele, há regiões com grande risco de secas, como as áreas centrais dos Estados Unidos, o Leste Europeu, o Norte da África e a Amazônia. “O nível do mar deverá subir meio metro, o gelo do Ártico deve desaparecer no verão e as novas condições do clima atingirão a agricultura e o turismo”, afirmou. Furacões mais intensos e o aumento de doenças transmitidas pela água contaminada também fazem parte das previsões – curiosamente, ele não fez qualquer menção à causa principal destas últimas, a escassez de infraestrutura de saneamento básico, que afeta mais de metade da Humanidade.

A preocupação demográfica percorre todo o relatório de 400 páginas, que antecipa um pico populacional de 8 bilhões de habitantes no planeta, em 2042, dos quais 3 bilhões serão pobres, o que acarretará migrações em massa e caos social.

O texto estabelece quatro linhas de ação prioritárias: 1) reduzir o número de filhos, principalmente, nos países industrializados (quase todos já se encontram com taxas de fertilidade abaixo da mera taxa de reposição da população – n.e.); 2) reduzir a “pegada ecológica”, em especial, nas nações ricas; 3) promover a expansão de fontes energéticas de “baixo carbono” (leiam-se solar, eólica etc.), nas economias emergentes e pobres, financiadas pelos países mais ricos; e 4) combater as visões de curto prazo, reforçando as capacidades de resposta globais aos problemas.

Na entrevista, Randers descreveu os quatro “valores” que as redes do Clube de Roma e do WWF estão promovendo: 1) educação e “empoderamento das mulheres”; 2) transformar a redução do uso de combustíveis fósseis em uma “mensagem religiosa e moral”; 3) tornar os governos “aptos para os próximos 40 anos”; e 4) limitar as desigualdades de rendas e instituir o pleno emprego.

Desafortunadamente, para a Humanidade como um todo, é difícil discernir como seria possível reduzir os desequilíbrios sociais e recolocar a economia mundial no caminho de uma reconstrução plena, com a insanidade da “descarbonização” das fontes energéticas.

WWF em cena

Apesar de ter participado diretamente da nova diatribe do Clube de Roma, o WWF não poderia deixar de dar a sua contribuição específica para uma campanha tão relevante para o planejamento estratégico do Establishment oligárquico, em especial, diante dos temores de que a conferência Rio+20 não produza os resultados esperados por tais círculos. Em 15 de maio, a ONG lançou o relatório “Planeta Vivo 2012: a caminho da Rio+20”, cumprindo o seu papel de lançadora das diretrizes ideológicas seguidas pelo movimento ambientalista internacional. O documento é outra atualização, na linha do que o WWF vem enfatizando nos últimos anos, a de que o consumo atual da população mundial já excede a capacidade do planeta e, se mantido, em 2030, nem dois planetas seriam suficientes para atender às necessidades globais. Em 2050, afirma o texto, quando a população mundial atingir 9 a 10 bilhões de pessoas, seriam necessárias três Terras.

Para que nenhuma pessoa sensível tenha que ler as 162 páginas do relatório (somente o sumário executivo preparado para a mídia tem 38), a sua essência pode ser apreciada por apenas duas passagens. A primeira sugere nada menos que o banimento quase total do uso de combustíveis fósseis, até 2050, afirmando que poderiam ser substituídos por um grande aumento do uso de fontes eólicas, solares e outras do gênero. A segunda sintetiza toda a ideologia misantrópica e exclusivista dos mentores do ambientalismo internacional: “Se todos vivessem como um morador típico dos EUA, seriam necessários 4 planetas Terra para regenerar a demanda anual da Humanidade imposta à natureza… se a Humanidade vivesse como um habitante comum da Indonésia, apenas 2/3 da biocapacidade do planeta seriam consumidos.”

Aí está, sem rodeios, a proposta do WWF e seus pares para o futuro do planeta: se converter numa grande Indonésia. E, com todo o respeito ao valoroso povo daquele país, que ainda não tem sete de vida independente (53 anos sob duas ditaduras militares) e enfrenta enormes desafios para promover o desenvolvimento da quarta maior população do mundo, dividida em milhares de ilhas, tanto a Indonésia como o restante da Humanidade merecem uma perspectiva melhor que a referência de desenvolvimento dos valorosos defensores do meio ambiente. Para ficarmos apenas num indicador clássico de desenvolvimento e bem-estar, o consumo per capita de eletricidade, o nível da Indonésia em 2009 era de apenas 609 kWh/hab.ano, apenas 22% da média mundial (2.729 kWh) e não mais que 82% da média asiática sem a China (741 kWh). E, certamente, não será recorrendo às fontes eólicas e solares, que os indonésios conseguirão elevar-se ao nível considerado como mínimo necessário para as necessidades de sociedades modernas, na casa dos 3.000 kWh.


E, da mesma forma como os documentos coirmãos, o manifesto do WWF ignora solenemente o principal fator de “insustentabilidade” do planeta, o sistema financeiro internacional em sua presente forma, desvinculada das economias físicas e das necessidades reais das populações de todo o planeta.

Como se percebe, a múmia de Malthus deve estar orgulhosa da persistência da sua herança intelectual, dois séculos depois de o reverendo ter criado a sua perniciosa e anti-humana escola de pensamento econômico e social.

Agradecimentos a Geraldo Lino.

Abraços tropicais!

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