Um desabafo, que fala por muitos.

Publicado: junho 29, 2012 em Arquivo BFC!
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A algum tempo recebemos uma carta de um Oceanógrafo, aonde ele dizia muitas coisas sobre o ambiente acadêmico, da produção intelectual e da pesquisa que serve não só para a  área de meio ambiente, embora o texto seja direcionado a ela. É um texto que sem dúvida nos faz pensar.

Essa carta muito interessante, que por algum tempo ficou na gaveta esperando a hora certa de ir parar no blog, de fato nesse contexto de RIO+20 e de bocas que falam absurdos aos quatro cantos pela internet e por toda mídia emerge como algo interessante para refletir.

Profissão de Fé.
Primeiramente, gostaria de dizer que sou um péssimo exemplo de aluno. Cheguei a ouvir algumas vezes de professores que “Com essa cabeça minha, eu não me formaria aqui.”. Sim, admito que me deprimo com frequência, que sou pessimista, hermético, e muitas vezes ostracista. Sou aluno de uma instituição que aprendeu a funcionar sob os auspicies da falta de ética, da falta de valores humanos verdadeiros e que se resignou ao papel secundário de produzir fazedores de provas e “assinadores” de listas de presença. Nesse paradigma, alunos são mera conseqüência da existência de uma instituição de ensino e de funcionários remunerados para professar algo que deveria ser edificante, desafiador, criativo e principalmente, construtivo.  Construímos alunos.
Em contrapartida, tenho orgulho de ser estudante. Sou um estudante ávido de assuntos que não são considerados importantes nessa instituição, sou estudante ávido de mim mesmo, sou estudante voraz de nosso Status Quo. Em verdade, meu único mérito em minha vida é o de ser capaz de estudar, de me manter inquieto e ser “iconoclasta” como também já fui tachado.
Em segundo plano, gostaria de manifestar minha satisfação de ver um debate sobre algo que vai contra o orçamento dos valores professados aqui. Valores que podem ser resumidos numa frase: “Poluo, logo existo”.
Existe um estado de torpor filosófico tão gritante, que qualquer mantra que se aproxime de algum remoto sentido de culpa cultivado pelo poder da programação neurolinguística, é celebrado como uma indulgência em períodos de escuridão medieval.
Mas, no século da informação, o que é uma indulgência?
Uma indulgência é o sentimento de conforto, de absolvição de culpas e remissão de pecados, quando nalgum artigo devidamente copiado do Yahoo Respostas e endossado por algum bastião do assunto, torna-se a nossa opinião, visão, compreensão de mundo e por fim, nossa postura cultural e nosso jargão profissional.
É triste testemunhar, em pleno século XX e XXI, o fim do senso crítico em nome de investimentos em campanhas publicitárias, voltadas para o lucro proporcionado pela catequese de mentes que desejam se tornar porta-vozes de uma pseudo-ciência de vanguarda.
Mais uma vez, o conhecimento se torna instrumento de vida ou morte enquanto é colocado como objeto de crença e não como fruto da razão questionadora, da ciência da dúvida, da fragilidade das unanimidades.
Mais uma vez, somos colonizados por estrangeiros em roupas brilhantes, falantes de línguas incompreensíveis, que são elevados ao patamar de deuses detentores de sabedoria atemporal, de conduta inquestionável, de poderes incompreensivelmente maiores que nossas primitivas mentalidades.
Citando Alston Chase: “when the search for truth is confused with political advocacy, the pursuit of knowledge is reduced to the quest for power.” – “Quando a busca pela verdade é confundida com a defesa de interesses políticos, a busca por conhecimento é reduzida à mera empreitada por poder.”.
Pois bem, temos um novo processo de colonização sendo feito, iniciado em nossas universidades há pelo menos 100 anos, iniciado com a Eugenia e o Positivismo, mãe e pai dos horrores de todas as guerras de nosso século.
Presenciamos a construção gradual de uma hegemonia absolutista de interesses recorrentes de dominância global financeira, econômica, intelectual e finalmente material. Somos os filhos de um regime plutocrático há muito tempo iniciado pelo sistema Veneziano de Bancos, tão bem ilustrado por Sheakspeare em seu “Mercador de Veneza”.
Presenciamos o molde de cinco gerações baseadas em conceitos de acumulação de crédito e posses, seguindo-se uma a uma a degradação e destruição de valores humanísticos. Vemos geração após outra se adaptar às leis de mercado, à produção de um sistema de polaridades ditas como opositoras absolutas e unívocas, e nos esquecemos de como é SER antes de TER.
Nesse aspecto, o mantra do aquecimento global é o mais apropriado para se ter uma geração desprovida de senso crítico, desprovida de pensamento construtivista ou mesmo de um senso de união que não seja estimulado pelo sentimento de perda e vingança – vide 9/11 – ou pelos sentidos mais básicos de nosso cérebro reptiliano – prazer, sobrevivência e perpetuação de espécie.
Dessa maneira, somos objetos de manipulação fiéis às nossas crenças e não às nossas dúvidas. Somos treinados a nos resignar, temer ou colaborar com esse sistema, e somos admoestados a não oferecer nenhum pensamento discordante, sob a penalidade de sermos exclusos do sistema de lucro, e portanto, condenados ao degredo social e econômico.
Diariamente somos ensinados a não oferecer resistência, a não sermos tão negativos quanto às nossas insatisfações. Somos expostos a empreendedores que são posicionados em lugares de destaque, à fama, por serem capazes de vencerem suas crenças dissonantes e se tornarem exemplares membros emergentes de uma sociedade onde tudo tem um “jeitinho”. Pois bem, aí estão nossos frutos. Somos novamente primatas, neandertais alfabetizados, leiloados pela qualidade de nossos dentes – ou currículos – examinados pelas nossas aptidões e vigores mentais ou morais, e comprados como argamassa que será usada para preencher velhas falhas e erguer novas estruturas das catedrais de nossos deuses, que se sentam em cadeiras de couro, ganham quantias inconcebíveis de dinheiro por segundo, e nos observam do alto de suas torres de marfim com olhos que buscam os mais aptos acólitos para seus serviços sacrificiais.
Bem vindos à Ordem feita de Caos.
Mateus Lopes B. Teixeira – 22/05/2012.
Abraços Tropicais!
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comentários
  1. Delma disse:

    Falou por mim, obrigada! Abraços neandertais…

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